Quando o momento chega, você precisa estar pronto.

Existe uma foto que eu não planejei. Eu estava sentado no meio do pasto, em Campos do Jordão, fotografando um cavalo árabe marrom que tinha corrido o dia inteiro. Não havia roteiro, não havia assistente, não havia nada além de mim, da câmera e da tarde que fechava devagar sobre o campo. Dois cavalos se cumprimentando pela cerca em Campos do Jordão Foi quando o cavalo branco do vizinho se aproximou da cerca. Os dois se encontraram com os focinhos. Um cumprimento silencioso, daqueles que acontecem entre animais que se conhecem há tempo e não precisam de palavras. Durou segundos. Eu aperti o obturador. Essa foto virou a capa da reportagem que a NPhoto Magazine, uma das maiores revistas de fotografia do Reino Unido, dedicou ao meu trabalho.


Passei grande parte da infância em Campos do Jordão, rodeado de cavalos, aprendendo antes de tudo a observá-los. Como eles se movem antes de correr. Como a orelha vira quando algo chama atenção. Como o corpo muda quando o animal relaxa ou quando tensiona. Essa leitura, feita durante anos, é o que separa uma foto de cavalo de uma boa fotografia equestre. Não é o equipamento. É o tempo que você passou olhando antes de fotografar.


Quando finalmente juntei essa intimidade com os animais à fotografia, as imagens começaram a acontecer de um jeito diferente. Não porque eu aprendi a forçar o momento, mas porque aprendi a reconhecê-lo antes que ele terminasse. Cavalo cinza galopando em fotografia equestre brasileiraO cavalo cinza que aparece galopando na reportagem foi fotografado num dia comum. Eu o observava há um tempo quando ele simplesmente explodiu em velocidade. A foto que saiu dali tem aquela qualidade rara de imagens que você sente antes de analisar. O animal parece estar saindo do quadro. Parece barulhento, mesmo sendo uma fotografia. Já o retrato do cavalo marrom que encara a câmera saiu de um dia em que eu já tinha fotografado quatro animais e estava cansado. Poderia ter encerrado ali. Retrato de cavalo marrom encarando a câmeraMas esperei mais um pouco. E então o cavalo parou, virou a cabeça na minha direção e me olhou com uma autoridade que eu não esperava. Há fotografias em que o animal fotografa o fotógrafo. Essa é uma delas. A égua branca com o fundo escuro foi diferente. Um amigo pediu o registro como presente de Natal para a filha. Tentamos tudo para que ela posasse bem. Ela não quis. No momento em que paramos de insistir, ela virou de lado com aquela indiferença elegante de quem não deve satisfação a ninguém. Cliquei. Saiu a foto mais delicada de todo o portfólio.Égua branca em retrato com fundo escuro


A NPhoto dedicou três páginas ao meu trabalho. Analisou cada imagem, identificou as escolhas por trás de cada uma e encerrou a reportagem com dicas técnicas baseadas especificamente nas minhas fotos, recomendadas para fotógrafos que querem chegar ao mesmo resultado. É o tipo de reconhecimento que não se pede. Aparece quando o trabalho fala por conta própria.


Fotografar cavalos me ensinou que você não controla o momento. Você se prepara para ele. Você chega antes, fica mais tempo, presta atenção no que os outros ignoram. E quando o momento aparece, você já sabe o que fazer. O resto é consequência.